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Porque não considerar o Espiritismo como religião?

A questão de saber se o Espiritismo é ou não uma religião, mais que todas as outras questões, não é matéria meramente opinativa, pois depende de apreciação de muitos fatos, mas conduz a posições opinativas, a radicalizações. Irei nesse tópico apenas elencar fatos históricos e etimológicos trazidos por Kardec sobre a questão \"religião\", na Revista Espírita.

Sentindo Kardec que as palavras se revestem de imensa importância, cuidou de garantir, assegurar, que o espiritismo, todo um novíssimo universo de idéias e fatos, pudesse ser traduzido, vazado, por um elenco de palavras perfeitamente explícito, com um mínimo risco de confusões e obscuridade possível.

A codificação é, no seu contexto, tão explicita, tão clara, que me pergunto como pode haver alguma dúvida sobre as transparentes colocações de Kardec.

Este nunca deixou de pautar-se por três constantes, de que não se desviava:

a) jamais chamava o espiritismo de religião;

b) repreendia, refutava, animoso até, em polêmicas, os que insistiam em dar à
doutrina tal rotulação; e

c) ele mesmo só chamava o espiritismo de ciência ou doutrina, adjetivando esses substantivos de modo variado, mas sempre como matéria cientifica, filosófica e moral.

Por vezes, no que era acompanhado pelos Espíritos, concedia-lhe o epíteto de \"laço\". Laço social, laço moral, laço sublime, era como às vezes chamava o espiritismo. Que quer dizer?

Temos de voltar ao começo da civilização ocidental, aos costumes e à cultura de Roma, à fonte da latinidade, para surpreender a prístina, primitiva, original acepção da palavra religião: tinha para os romanos, no latim, a significação de \"nó\" ou \"laço\".

Quando Kardec recusava-se obstinadamente - e era irredutível nisso - a chamar de religião ao espiritismo, era ao vocábulo que objetava, pelo rumo que tomou, no curso dos séculos.

Mas não desadorava o conceito natural, nativo, que esse vocábulo expressava em tão priscas eras: o de laço moral, laço social, principio da união civil e política. Nos Prolegômenos d\'O livro dos Espíritos, em seus últimos parágrafos, há a referência ao caráter de \"laço fraternal que envolverá o mundo inteiro\". É o velho conceito romano, e religio-religionis, antes que a palavra fosse desnaturada, descambando para o significado de culto que estaciona hoje.

Na Revista Espírita de 1858, paginas 208/210, vol. 1 (coleção EDICEL), há uma carta de um certo Marius M. De Bordéus, que pede licença a Kardec para chamá-lo de confrade e conceitua que \"a doutrina deve ser um laço fraternal entre todos que a compreendem e a praticam\".
Kardec retribui a essa conceituação com um lance antológico que vale a pena transcrever:

\"Com efeito o espiritismo é um laço fraternal, que deve conduzir à prática da verdadeira caridade cristã todos os que a compreendem na sua essência, porque tende a fazer desaparecer os sentimentos de ódio, inveja e ciúme, que dividem os homens\".

Faz notar uma importante diferença, numa ressalva necessária:

\"Mas esta fraternidade não será a de uma seita; para ser segundo os divinos preceitos de Cristo, deve abarcar a humanidade inteira, pois todos os homens são filhos de Deus...\".

Aí esta estampada, cruamente, a utilização do conceito natural de religio- religionis (nó, laço, nexo, relação social), com clara exclusão do outro sentido, o sobrenatural, que a palavra tomou depois, que implica o significado de culto e seita.

Nenhum culto, por mais hegemônico que seja, logrou jamais envolver a humanidade inteira. Todos se quedaram, sem exceção, detidos por limitações e partições geográficas, culturais, políticas, raciais, nacionais, lingüísticas.

Também nos prolegômenos, há a declaração de que ali está uma filosofia racional, isenta dos prejuízos do espírito de sistema, vale dizer, do dogmatismo.

Sem dogmatismo, que é o espírito de sistema; sem o sectarismo, que é o espírito de seita, como pode alguém enxergar aquela doutrina, que é um laço natural, nunca sobrenatural, feito de fatos e princípios, como sendo um culto religioso?

Ao cabo de um ano, ei-lo às voltas com um afoito Abade, François Chesnel, que pelas paginas de L\'Univers, chamara o espiritismo de \"uma nova religião de Paris\".

Na Revista de 1859, paginas 141 a 150 e 211 a 213, está documentada a
forte reação de Rivail a esse fato.

\"Os fatos protestam contra essa qualificação\", principia (pg. 150).

\"Em segundo lugar, é o espiritismo uma religião?\".

\"Fácil é demonstrar o contrário\" (pg. 148).

\"Seu verdadeiro caráter é o de uma ciência, não o de uma religião\" (idem).

\"...tem conseqüências morais, como todas as ciências filosóficas\" (idem).

\"O espiritismo não é, pois, uma religião. Do contrario teria seu culto, seus templos, seus ministros\" (idem).

O Abade havia-se louvado, para aquela qualificação (de religião), no fato de os espíritas orarem a Deus em suas reuniões.

Kardec protesta:

\"Que prova isto?\".

\"Que não somos ateus. Mas de modo algum implica que sejamos adeptos de uma religião\" (p. 149).

Antes havia assinalado o fato incrível de que, entre os adeptos do espiritismo, havia profitentes de todas as religiões e seitas: católicos, protestantes, israelitas, muçulmanos, budistas e bramanistas.

Quer dizer, eram religiosos por suas crenças em diversas religiões, no sentido de culto que esta palavra tem. Mas isso não se aplicava à sua adesão ao espiritismo, que não é uma religião no mesmo sentido, apenas um laço social, religando todos os que compreendem e praticam a doutrina, formando uma comunidade multirracial, multinacional, multilingüe, multiconfessional, uma perfeita antecipação do que seria um Esperanto, por exemplo, isto é, um fato muito abrangente que supera todas as partições e divisões humanas.

Por tudo isso, sabe-se qual era a permanente posição do Codificador, primeiro quanto ao espiritismo, segundo, quanto aos que vivam a chamar a este do que não é.

Essa polemica foi rumorosa. Teve replica do Abade. Kardec respondeu-lhe, também está nas paginas 211/213 do mesmo volume.

Explicita ali que \"...o Abade Chesnel se esforça sempre por provar que o espiritismo é, deve ser e não pode deixar de ser senão uma religião nova, porque não decorre de uma filosofia e porque nele nos ocupamos da constituição moral e física dos mundos\".

E argumenta: \"Sob esse aspecto, todas as filosofias seriam religiões\" (pg. 211/212).

E repreende-os: \"Realmente, senhor Abade, é abusar do direito de interpretar as palavras...\" (...) \"...Se, entretanto, o quiserdes elevar a todo custo ao plano de uma religião, vós o atirais num caminho novo\" (213).

Para Kardec, o espiritismo era uma ciência filosófica que, longe de abafar as idéias religiosas, como fazem quase todas as suas congêneres, despertava aquelas idéias nas pessoas.

Mas isso, evidentemente, sem nunca se confundir com as religiões, isto é, os cultos, de cuja natureza não participa.

Porém, em 1861, no vol. 4 pg. 13, Kardec responde a Georges Gandy, diretor do Lê Bibliographie Catolique, um detrator da doutrina:

\"Quereis a toda força, que o espiritismo seja uma seita, quando se aspira ao titulo de ciência moral e filosófica, que respeita todas as crenças sinceras\".

Estava lançada, de modo claro, a trilogia kardequiana: ciência, filosofia e moral.

Se a Igreja fraudou o significado-chave da civilização ocidental, inventando uma tradução inveraz, Kardec representou a restauração da verdade.

Aquela pagina 356 do vol. 11 da Revista Espírita, está carregada de eletricidade. Ali se repristina, volta-se, está-se remontando ao começo da civilização ocidental, num reencontro da cultura mundial com suas fontes.

No seu estado natural, nativo, com que nasceu, a palavra religião era só isso

- laço que reúne homens, que os aproxima, laço de substancia moral, feito de costumes espontaneamente assumidos e livremente mantidos e aceitos. Numa palavra - contrato social.

Religião ao natural é isso, tal é a religião natural a que o Espírito da Verdade aludiu um dia. Pois que isso o espiritismo é, um laço entre homens, laço feito de conhecimentos, noções, de habitualizações, convivências, hauridas nos fatos, nenhum mal haveria em ser pensado como aquele fato que antigamente se chamava de religião.

Chamado de religião, o espiritismo só parecia ser um culto aos olhos do povo e isso ele não é, não pode ser assim referido.

Por isso Kardec produz aquela explicação, na pagina 357 daquela obra, admitindo o óbvio, de que a doutrina espírita funciona como um laço entre os adeptos, identificando-os, solidarizando-os, não por pressões ou injunções, mas com base em leis naturais: a estima, a benevolência mutua, a fraternidade, a comunidade de conhecimentos e disposições .

É o sentido filosófico da palavra religião que está em jogo. Mas nem assim pode ainda a doutrina ser taxada de religião. Outros motivos poderosos impedem-no. Por isso Kardec descarta, de vez, qualquer aplicação da palavra para que o entendimento do povo não seja confundido.

E é isso que os seus seguidores devem fazer: atender a Kardec, não chamar o espiritismo de religião nem mesmo no sentido relativo, filosófico.

Pode-se perguntar por que Kardec não silenciou, quando teria sido fácil faze-o, ja que omitira aquela declaração durante todo o tempo que durara a Codificação.

Por que rompeu seu silencio a cinco meses de sua desencarnação? Foi seguramente o seu permanente compromisso com a verdade que ditou aquela manifestação.

Ao cunhar o nome de \"espiritismo\", havia já decretado a necessidade futura de, a qualquer tempo, dar aquela explicação.

Os espíritas são adeptos do espiritismo, não os religiosos dele, pois não é um culto religioso. E correligionários é expressão que ficou confinada à área política, já que no âmbito profissional diz-se que há colegas, para estudantes e profissões liberais.

É uma questão de propriedade vocabular, que não pode ser ignorada: o adjetivo religioso/religiosa é privativo dos cultos látricos. Cada faixa de significação, entre os substantivos, traz a sua adjetivação adequada - o espiritismo consagrou a expressão de confrades, adeptos, tal como os radioamadores com \"macanudos\", os esperantistas com \"samideanos\", isto é, coidealistas.

Quando chamou de \"ismo\" a doutrina espírita, Kardec criou como que uma fatalidade semântica: passou a dever à cultura, à comunicação, aquela necessária explicação.

Portanto, ao subir à tribuna da Sociedade de Paris, a 1º de novembro de 1868, sexta-feira, às 20,30 horas, pesava sobre seus ombros a desincumbência de uma obrigação formidável, pessoal e histórica.

Nesse seu famoso discurso, de abertura da sessão anual comemorativa do Dia dos Mortos, na Sociedade de Paris, retoma o assunto e intitula a peça oratória com aquela mesma pergunta que fizera no bojo de sua resposta ad Abade:

\"É o espiritismo uma religião\"? (Revista Espírita, pg.351 a360, ref. Dezembro de 1868).

Desta feita, opta por um procedimento diferente. Já dissera nove anos antes (1859) de forma peremptória, que o espiritismo não era religião, enquanto essa palavra significasse culto formal, igreja ou seita, crença mística e piedosa ou coisa assim.

No discurso de abertura, todavia, que é o nome mais sintético com que ficou conhecida essa manifestação, produz algo surpreendente, que precisa ser devidamente avaliado em sua imensa novidade, em sua grande significação: inova a lexicografia, contraria a etimologia geralmente aceita, aponta outro étimo, que não é corriqueiro \"religare\", como geralmente se supõe.

Não revela qual é o étimo novo que introduz, mas pela tradução que dele dá, sabe-se que é o mesmo que Cícero refere, é religio-nis.

Todavia, passa alem do texto cicerônico e repristina, faz arqueologia semântica, atribuindo ao étimo um alcance maior, fixando sua tradução em \"laço! ou nó, de modo explícito, tornando claro o que Cícero apenas insinua.

Retraça, empolgante, o que era na cultura romana o conceito de religião (pág.
356):

\"Com efeito, a palavra religião quer dizer laço\".

\"Uma religião, em sua acepção nata e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunidade de sentimentos, de princípios e de crenças\".

\"O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é pois um laço essencialmente moral que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações\".

\"O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como conseqüência da comunidade de vistas e sentimentos, a fraternidade, a solidariedade, a indulgência e a benevolência mutuas\".

Se compararmos essa manifestação com o que dissera em 1858, a Marius M., veremos que são complementares.

Em seguida, tendo fixado bem o que era o significado primitivo, original e
natural da palavra, desfecha (pág. 357):

\"Se assim é, perguntarão, então o espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o espiritismo é uma religião e nos o glorificamos por isto, porque é a doutrina que funde os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza\".

Primeiro descreveu o que se deveria entender por religião, no sentido filosófico, que é o natural, na palavra. Era o seu nato e vero significado, esse que traçou: religião é um laço social e civil, religava homens entre si, formando comunidades por uma similitude natural.

Depois enquadra aí o espiritismo e estabelece que, nesse sentido natural da palavra, existe uma relação entre a doutrina e o vocábulo.

Isso não nega, mas confirma, o que dissera antes, no ano de em 1858 ao confrade de Bordéus, como expendera ao Abade em 1859. o espiritismo para Kardec, é um laço social, de substância moral, que consiste em uma ciência filosófica e moral, a qual não abafa as crenças religiosas, antes estimula-as, fazendo mesmo o prodígio de interessar e reunir, fazendo-os conviver lado a lado, pacificamente, os fiéis e crentes de todas as religiões.

Mas não é, ele mesmo, uma religião, pois não é um culto látrico, apenas uma doutrina filosófica espiritualista.

Claríssimo, não? Mas surgiram novas explicações:

\"Por que então declaramos que o espiritismo não é uma religião\"?

Eis aí uma boa pergunta. Todos estamos perplexos. Se ele é uma religião no sentido filosófico da palavra, não um culto, por que Kardec não dissera isso antes, limitando-se a declarar enfático que não era uma religião?

A resposta é magistral:

\"Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes e que na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto.

Prossegue Kardec:

\"Se o espiritismo se dissesse uma religião (...) o público não o separaria das idéias de misticismo...\".

Quer dizer: chamado de religião, ainda que no sentido filosófico da palavra, que não é um sentido místico, o povo, que não faz tais distinções finas, sutis, de ordem semântica, acabaria pensando que ali estava uma religião no sentido único que maneja e conhece: um culto, uma igreja.

\"Não tendo o espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um titulo sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado\".

Esse modo de dizer (\"se teria equivocado\"), significa que qualquer um, qualquer pessoa, se teria equivocado, que isso causaria um equivoco generalizado, com toda gente pensando o mesmo: que o espiritismo era um culto, uma seita religiosa.

E remata conclusivo: \"Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral\".

Então, por que muitos no Brasil, consideram o espiritismo uma religião? Um dos motivos foi Emmanuel, no livro O Consolador, em que lhe perguntaram se, vejam bem a condicional - \"se\" - tendo o espiritismo um tríplice aspecto, o cientifico, o filosófico e o religioso, qual destes seria o mais importante.

Ora, era uma pergunta ardil, pois Emmanuel lançou seu famoso triângulo, definindo o espiritismo como \"ciência, filosofia e religião\", dando a esta última a primazia, o que foi considerado verdade final pelos organismos federativos do movimento. Como premissa ficava estabelecido que os aspectos do espiritismo, os clássicos aspectos listados por Rivail, eram mesmo aqueles. Nos limites da pergunta, dava-se por liquido e certo que havia um aspecto religioso na trilogia definida por Kardec- o que é falso.

Kardec jamais condescendeu nisso, pelo contrário, objetava irredutivelmente tal classificação. Para ele a trilogia era outra: o espiritismo era científico, filosófico e moral. Foi o que disse a seus opositores em polemicas.

A idéia de um aspecto religioso é tipicamente não kardequiana e incorporou aqui no Brasil. Não é um dado da Codificação mas sim, aquela sim, uma formidável opinião pessoal.

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