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A difícil arte de ser um jornalista espírita

Há 150 anos, os espíritos deram a Allan Kardec um roteiro de comunicação espírita. Quase todo centro espírita brasileiro tem um pequeno jornal, mural informativo ou boletim. Alguns imprimem em cores, outros fazem boletins fotocopiados.  Quem não tem veículo próprio, põe no mural o jornal de uma federativa ou de outro centro espírita. Programas de rádio, revistas, páginas na internet, revistas e alguns poucos - e honrosos - esforços para fazer programas de televisão mostram o quanto as instituições espíritas vivem enamoradas da comunicação social. Mas há conflitos sérios nesse relacionamento.

É lugar comum dizer que falta profissionalização da comunicação social espírita. Como é de conhecimento geral, há problemas crônicos. Duas situações são bem típicas. A primeira é que os jornalistas são geralmente muito atarefados e não conseguem - na condição de voluntários - colaborar com a regularidade que a comunicação social exige. A segunda ocorre quando o jornalista é chamado a trabalhar profissionalmente e tem de enfrentar as idiossincrasias locais. Em outras palavras: a comunicação social tem de se adaptar à visão parcial (e amadora) do dirigente. O jornalista então é visto não como um profissional de mercado, que cursou uma universidade para bem desempenhar sua profissão, mas como alguém que está ali apenas para expressar vontade e pensamento de uma outra pessoa. Assim, subvertem-se papéis e funções, limites são ultrapassados e todos perdem.

A falta de diálogo e reflexão sobre a comunicação social traz prejuízos consideráveis à divulgação da Doutrina. Um corpo teórico que normatize procedimentos e rotinas ainda é uma lacuna a preencher. A isso somam se outros problemas rotineiros nas agremiações humanas, inclusive espíritas: os avanços do personalismo, da politicagem, das atitudes ególatras, da falta de humildade para avaliar com isenção potenciais e desempenhos, sem se deixar cegar pela bajulação e mantendo o foco na divulgação. Sobre essa montanha de problemas pode-se acrescentar ainda os palpiteiros de plantão e os que julgam conhecer profundamente uma profissão diversa da sua unicamente porque assumiram cargos de direção em instituições espíritas.

O resultado disso é o cenário atual: raros veículos cumprem a função básica da comunicação social. Poucos informam com agilidade, trazem textos enxutos ou diagramação, fotos, roteiros e edição de boa qualidade. Muitos textos mornos, insípidos, que não atraem o leitor.

Escrever é uma arte. Escrever jornalisticamente é uma ciência. E os dirigentes espíritas ainda não descobriram isso. Geralmente toma-se como modelo de texto os romances espíritas, com histórias emocionantes e bem narradas, mas com uma abundância de adjetivos e advérbios incompatível com o texto jornalístico. Mais grave: o conjunto do Movimento Espírita incorporou ao seu linguajar intramuros expressões e construções frasais em moda na primeira metade do século vinte. Na prática, temos jovens de vinte anos que negam o que de mais belo uma língua falada possui: a dinâmica. Línguas são vivas, móveis. Ajustam-se a tempos novos, incorporam expressões e jeitos de determinadas épocas, traduzem seu tempo. Em suma, carregam a marca da contemporaneidade.

E dessa forma vemos uma estranha dualidade: nas ruas, os espíritas falam uma língua compatível com sua época, com seus ritmos e avanços; mas na instituição espírita sacam de um vocabulário específico, em que palavras incomuns, algumas já em desuso, oferecem o status da inclusão e da aceitação no grupo. Um fenômeno que merecia ser estudado: quanto mais próximo ao vocabulário de alguns espíritos conhecidos por seus livros, mais o candidato a palestrante ou escritor tem chances de ser aceito e aplaudido. Se conseguir construir frases rebuscadas, com as construções invertidas que indicam domínio do idioma, alcança a glória. Previsivelmente, transpõe-se a prática para a comunicação social.

Mas tudo isso tem uma outra face difícil de encarar: para quem se está fazendo comunicação social espírita? Para o grupo de espíritas ou para o público que ainda desconhece a Doutrina? A esse grupo externo causa estranheza essa linguagem nostálgica. Também está desacostumado com uma outra prática que se incorporou ao cotidiano espírita: o bonitinho. Funciona assim: pessoas que fora da instituição espírita têm contatos com folhetos de qualidade, fotos bem tratadas, jornais e programas de TV de alto padrão, no centro espírita abrem mão de tudo isto. Passam a elogiar folhetos mal feitos, produtos de qualidade duvidosa, exageros de criatividade em que a técnica passou longe. E escondem a opinião sincera sob a desculpa da caridade. \"Ah, não está tão bom, mas a pessoa se esforçou tanto e, para agradá-la, vou dizer que está bonitinho\".

Poderia ser assim: \"Acho fantásticos a sua boa vontade e seu esforço, mas precisa de ajustes e de um tratamento profissional\". Mas então entra em cena um dos monstros que mais corroem as relações humanas: o melindre. E pensar que o Espiritismo veio justamente para libertar a nossa alma desses apegos infantis, desses sentimentos menores.... Mas isso é outra conversa.

Exposto o problema, fica a questão: há como escapar desse cenário? A resposta foi dada há exatos 150 anos. No dia 15 de novembro de 1857, apenas seis meses depois do lançamento de O Livro dos Espíritos, Kardec interrogou os Instrutores desencarnados sobre a possibilidade de publicar um jornal espírita: o primeiro do mundo. A resposta - pela mediunidade de Ermance Dufaux - veio sob a forma de um verdadeiro manual de comunicação social espírita. Manual que o codificador soube seguir à risca e que os espíritas do século 21 ainda não conseguiram pôr em prática.  Quem se interessar pelo assunto pode consultar o texto. Está em Obras Póstumas, segunda parte, e se chama \"A Revista Espírita\". Os olhos de um jornalista verificam com facilidade que cada orientação dada pelos espíritos a Kardec é compatível com a moderna teoria da comunicação. Bem seguidas, são o néctar de um jornalismo que tem vibração e agilidade. Ali, os espíritos falam de coisas sagradas para a comunicação social. Uma delas: melhor nada fazer do que fazer mal feito, já que a primeira impressão determina o futuro dos veículos de comunicação. Outro ponto: a regularidade que fideliza o público.

Um dado curioso: Kardec insiste em saber se deveria ter um amigo para financia-lo. Os espíritas não se entusiasmam e ele opta por fazer a Revista sozinho. Mais tarde (leia a nota de pé de página no livro citado), o codificador reconhece que as interferências do financiador poderiam ter comprometido o trabalho. Traduzindo: a independência tem peso no bom jornalismo.

Aspecto essencial que revela o pensamento avançado dos desencarnados: a sugestão de que o texto equilibre o estudo sério e os fatos capazes de atrair os leitores curiosos. A genialidade de Allan Kardec manteve essa linha em doze anos de Revista Espírita. Basta ler a publicação dele para se render aos títulos inteligentes e à seleção de matérias. Tudo muito interessante, provocativo. O leitor é instigado. Lê-se a Revista Espírita de um fôlego só. Mesmo passados um século e meio, os textos continuam hipnóticos - marca registrada de um bom escritor e de um bom jornalista. Aos jornalistas espíritas deste século, ainda resta uma esperança: redescobrir a orientação sobre comunicação social que permanece oculta nas páginas de Obras Póstumas.

Fonte: Jornal Vida Espírita - Fevereiro 2008

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