A+ A A-

Chico Xavier, a novidade da Sapucaí!

Será tão pecaminosa assim a iniciativa de se homenagear um homem através da cultura do carnaval?Francisco Cândido Xavier foi um homem que fez diferença para a sociedade brasileira e, quem sabe, para o mundo. Sua abnegação, doçura, mansuetude e trabalho no bem atenderam um número inimaginável de pessoas em sua residência, oferecendo-lhes a oportunidade de saber notícias de seus entes queridos que se foram, reconfortando corações, estimulando esperanças e apaziguando as almas aflitas pela perda.

Não foi somente isso. Chico Xavier, como era mais conhecido pelo público em geral, psicografou 451 livros, os quais invariavelmente traziam palavras de incentivo à caridade e à fraternidade entre as pessoas. Os diversos romances, muitos deles ditados pelos Espíritos de Emmanuel e André Luiz, fizeram adeptos em todo o mundo, ao terem sido traduzidos para os idiomas atualmente mais conhecidos pela humanidade. Raro é encontrar alguém que não tenha se emocionado lendo uma dessas obras. Há casos inclusive de pessoas que mudaram sua conduta pessoal e que hoje valorizam as boas ações. É, sem dúvida, uma evidência de sintonia com o bem nas linhas trazidas à luz pelas mãos de Chico Xavier.

É natural que indivíduos assim acabem por eventualmente terem suas ações reconhecidas por aqueles que admiram tanto sua pessoa, como suas obras. As diversas formas de expressão e comunicação do povo, contudo, nem sempre vão ao encontro dos interesses de todas as classes ou grupos sociais. Há quem diga, por exemplo, que a comunidade espírita brasileira é bastante flexível e preza quanto ao respeito à liberdade de expressão. Apesar disso, essa mesma comunidade tem vivido um momento conturbado em relação aos nomes Chico e Carnaval, devido a divergências graves de opiniões entre seus adeptos.

A informação divulgada recentemente pela imprensa de que a escola de samba Viradouro levará à Sapucaí um carro alegórico homenageando o conhecido médium causou estremecimentos no movimento espírita brasileiro. Uns afirmam que tal atitude chega a ser repugnante, por profanar o nome do médium e do Espiritismo associando-os a um evento que estaria em desacordo com os princípios da Doutrina Espírita, baseados em obras tais como Memórias de um Suicida, de Yvonne Pereira. De outro lado, há aqueles que acham até bastante simpática a decisão da escola, na medida que o que ela está fazendo é simplesmente tornando público o reconhecimento da figura Chico Xavier e a importância de sua obra na vida das pessoas.

Ora, o raciocínio não polarizado pelas emoções e afastado de nossas paixões pessoais, tenderá ao equilíbrio e ao bom senso na análise do caso e poderá auxiliar em muito na dissolução desse embate.

O primeiro ponto capital que não se pode deixar de se levar em conta é que tudo somente existe porque Deus assim permite. Ora, se o carnaval existe, é porque certamente ele possui o seu valor e, embora Deus saiba exatamente como ele pode nos auxiliar em nosso crescimento, talvez nós ainda não tenhamos (ou não desejamos ter) olhos de ver os seus benefícios. Dentre alguns que se podem evidenciar sem maiores dificuldades são a geração de renda para famílias de classes menos privilegiadas e a fomentação do turismo no Rio de Janeiro, que em muito beneficia essa mesma população.

Pode-se também dizer que, tanto jovens quanto adultos que não tiveram um objetivo de vida claro e nem oportunidades no passado, graças ao carnaval possuem hoje uma vida minimamente digna, longe das drogas e da violência, por conta de trabalhos comunitários, estímulo à arte e formação de profissionais, incentivados pelas escolas de samba participantes desse evento cultural. A própria manutenção da cultura e arte do povo já é, por si só, um fator positivo, visto que um povo sem memória é um povo frágil e sem identidade. Tudo isso é caridade em prol do menos favorecidos e não deixa de ser um ponto positivo a se levar em conta.

Um segundo aspecto muito importante também e que já até citamos no início é a liberdade de expressão. Antes de criticar uma postura supostamente antidoutrinária, precisamos ver até que ponto nossas próprias convicções ferem um conceito ainda maior, que é o do livre arbítrio. Deus deu o direito a todos de decidir os seus próprios caminhos e o livre arbítrio é expressão maior dessa concessão. Impedir o seu irmão de usar esse direito ou criticar sua decisão com repugnância ou discriminação é faltar-lhe com a caridade. Mais proveitoso e fraterno que isso é elucidá-lo sobre os possíveis equívocos, resignando-se quando ainda assim o mesmo não quiser nos escutar. Acusações, rótulos e críticas ácidas não são atitudes de um bom espírita e somente afastarão aqueles que podem estar precisando de ajuda.

Adicionalmente, convém ainda notar que, por tocar no nome do médium Chico Xavier, é impossível não se fazer alusões ao Espiritismo, face a estreita ligação das obras do médium e muitos dos conceitos básicos existentes na Doutrina Espírita. Logo, antes de nos afastar dos idealizadores e executores da proposta de homenagem, o mais adequado mesmo é nos aproximar deles, para que a divulgação das informações com caracteres espirituais possam inclusive ter a colaboração de quem eventualmente tenha mais propriedade de expor, por conhecer melhor as bases Kardequianas. Evita-se assim a possibilidade de eventualmente divulgar um conceito errôneo, ou associá-lo com o Espiritismo.

Aprofundando um pouco mais a questão da pureza doutrinária que vários confrades citam em seus discursos, queremos tecer algumas observações que às vezes nos passam despercebidas. Inicialmente, ao que se percebe, a maior motivação para que não se aceite a veiculação da imagem de Chico Xavier – e consequentemente do Espiritismo – na Sapucaí é o fato de existirem certos romances psicografados, que fazem menção a possíveis cenários de além-túmulo em que espíritos, ainda muito ligados à sensualidade e à violência, aproveitam-se desse período para atuarem mais intensamente junto aos encarnados, em um processo até mesmo obsessivo.

Ainda que não tenhamos tratado desse assunto no movimento espírita de modo mais profundo, avaliando-se esse tipo de tese segundo o método de Kardec, isto é, submetendo-o ao Controle Universal do Ensino dos Espíritos e, portanto, devendo-se ser tal tese entendida como opinião pessoal do espírito que a ditou, o bom senso nos diz que essa linha de pensamento é bastante razoável, sobretudo pela questão das afinidades de pensamentos que os espíritos nutrem quando possuem interesses em comum. Contudo isso não é motivo para que venhamos tomar iniciativas extremistas de repugnância em relação ao evento carnaval que, por si mesmo, não possui capacidade de gerar qualquer ação ou transtorno ao mundo. Tudo o que acontece de positivo ou negativo no carnaval, somente se concretiza por causa do homem, pois é ele que é o elemento gerador de vibrações e pensamentos. Faltamos coerência quando esquecemos desse pequeno detalhe e tratamos eventos semelhantes de forma diferente.

O futebol, por exemplo, se fôssemos adotar a mesma linha de raciocínio que os espíritas extremistas definem para o carnaval, talvez fosse um evento a ser considerado muito mais grave. O carnaval acontece apenas uma vez por ano e é difícil se ver casos de pancadaria entre membros de escolas distintas. O futebol, por sua vez, ocorre durante todo o ano, com vários campeonatos em paralelo, em nível mundial, além de dezenas de jogos semanais. Além do número de pessoas envolvidas com futebol ser muitas vezes superior ao número das que se envolvem com o carnaval, não é raro ouvirem-se casos de brigas, discussões, violência entre jogadores e torcidas, que se duelam ferozmente, com sentimento de ódio e crueldade para com o seu rival. Não é novidade para qualquer um que há inclusive casos extremos de morte por torcedores mais exaltados. E nessa questão da violência no futebol, o Brasil lidera o ranking de assassinatos no mundo, com uma média de 4,2 mortes por ano. Considera-se para essa estatística o fatos ocorridos dentro e no entorno dos estádios somente. Utilizando-se o mesmo critério para as escolas de samba, não há registros de crimes originados nas diversas “passarelas do samba” ou em seus entornos em todo país, tais como Sapucaí/RJ e o Circuito da Folia/BA.

De posse desses dados, perguntamos: Qual dos dois eventos está mais longe da Lei de Amor ao próximo? A resposta é direta. Contudo muito dos mesmos críticos do carnaval são os primeiros a comporem as arquibancadas dos estádios de futebol e se inflamarem contra os que não fazem parte do seu time predileto. Não se precisa afirmar que há aí uma notória falta de coerência de pensamentos e de conduta pessoal.

A própria instituição espírita é um exemplo fundamental no sentido de que não devemos alimentar posturas de repugnância ao carnaval ou a qualquer outro evento cultural existente na sociedade. Se levantássemos uma bandeira em favor da pureza doutrinária tendo em mente a separação do que é Espiritismo e o que é interesse mundano, teríamos que fechar as portas de todos os centros espíritas, já que não há na Terra seres humanos e, menos ainda, médiuns perfeitos. Qual de nós entrou em uma instituição espírita, permaneceu lá por algum tempo e saiu com a certeza de não ter pensado em algo inútil ou impuro? Poucos, certamente. Afinal, nossa condição evolutiva ainda não é das melhores.

Mas se esta carapuça nos cabe, porque apontar o dedo para aquele que deseja apenas fazer uma homenagem, atitude esta tão nobre e digna quanto o reconhecimento pelo bem recebido?

Não podemos esquecer que Jesus andava por entre prostitutas, ladrões, criminosos, maltrapilhos e esfarrapados, todos envolvidos com sua cultura terrena, com músicas, costumes, comemorações e festas mundanas, porém nunca mencionou qualquer assertiva contrária aos eventos promovidos pelo povo. Ao contrário disso, esteve sempre ao lado deles, amparando-os, curando-os, ensinando-os e preferindo estar com eles a estar com os doutores da lei nas sinagogas.

O carnaval é (ainda) uma necessidade da sociedade. Quando agimos de forma extremista criticando um evento cultural semelhante a esse, acabamos fazendo de nossas casas espíritas as sinagogas de outrora, afastadas do mundo e cheias de hipocrisia, uma vez que também nós não estamos livres das imperfeições. Tudo tem o seus pontos positivos e negativos. O equilíbrio e o bom senso juntos são sempre o melhor caminho para alcançar as melhores das conquistas.

Se uma tribo de canibais recebesse traduções dos livros que Chico Xavier psicografou; se essas traduções trouxessem bem estar e alegria a essa tribo pelos seus ensinamentos; se essa mesma tribo resolvesse prestar uma homenagem ao nosso médium amigo utilizando-se de sua cultura, danças e músicas; talvez os espíritas puristas religiosos não se importunassem e, quem sabe, até elogiassem a atitude desse povo, a despeito deles matarem e se alimentarem da carne de outro humano.

A questão do carnaval, contudo, toca em assuntos ligados aos tabus sociais, dentre eles, a sensualidade. Para se verem livres dessa ameça interior, as pessoas preferem não falar, ou, por outra, preferem repudiar, de modo a manterem uma distância psicológica mínima, que reduz a possibilidade de caírem em erro, pois no fundo reconhecem a sua eventual inabilidade para tratar desses tabus.

Todo medo é um indício de alguma fraqueza. Não é ruim isso. É um instinto de defesa. Só não é interessante que nos deixemos dominar por esse sentimento, ao ponto de discriminar as pessoas, os costumes e as culturas, equiparando-os com elementos supostamente malignos e sem lhes perscrutar os pontos que agregam valores ao mundo de alguma forma.

Se desejam divulgar Jesus, Chico, Kardec ou qualquer outro ícone de nossa história, ótimo! É mais um canal de acesso que o mundo terá às filosofias e pensamentos de quem fez diferença para a humanidade. O que será divulgado, isso é de responsabilidade de cada um, e não compete a nós impedir ou criticar o pensamento ou postura alheia, mas sim fazer uso do mesmo direito de expressão, esclarecendo e propagando a melhor compreensão e forma de análise que temos da luz trazidas por esses ilustres homens.

E a propósito de uma visão mais justa do evento carnaval, aproveitamos para indicar a leitura do texto de José Herculano Pires, \"o metro que melhor mediu Kardec\" segundo Emmanuel, intitulado \"Momo escorraçado do Olimpo ajeitou-se entre os homens\", também publicado neste site.

Finalizando, não podemos deixar de citar a nossa felicidade em receber da Assessoria de Comunicação da FEB a nota de esclarecimento abaixo, que muito sabiamente se posicionou de forma neutra, não discriminando a decisão da escola de samba de se fazer homenagem a quem merece, quando inúmeros confrades lamentavelmente alimentaram a postura de crítica, expondo suas opiniões aos quatro cantos e gerando repugnância e insatisfação no movimento espírita brasileiro ao carnaval.

Parabéns aos responsáveis pela Assessoria de Comunicação da FEB.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Tendo em vista inúmeras manifestações recebidas relacionadas com o anúncio de homenagens que se pretende prestar ao Espiritismo e a Chico Xavier no carnaval carioca, que enfoca a importância da comunicação dos homens com o mundo espiritual, a Federação Espírita Brasileira - FEB informa que tomou conhecimento desse assunto quando da sua publicação, não sendo correta a interpretação de que tenha participado de prévio entendimento.

A FEB esclarece, também, que continua empenhada em promover a difusão da Doutrina Espírita, nos moldes e na forma compatível com os seus princípios doutrinários, com seriedade, dignidade e elevação espiritual.

A FEB esclarece, finalmente, que respeita o direito de todos os que, no uso de sua liberdade de ação, agem no mesmo sentido de colocar a mensagem consoladora e esclarecedora dos ensinos espíritas ao alcance e a serviço de todas as pessoas, onde elas se encontrem, orientando, todavia, para que esse trabalho seja sempre feito preservando os seus valores éticos e doutrinários.

Brasília, 18 de fevereiro de 2011.

Assessoria de Comunicação da FEB

Siga-nos!

Vídeos da Comunidade

Loading
http://spiritismo.co/modules/mod_image_show_gk4/cache/content.2013-01-25 - jesushistoricogk-is-97gk-is-115.jpglink

Notícias

Desconstrução do Mito de Jesus Cristo

01-02-2013 | Notícias

Em sua entrevista a William Klein, no Programa Ciência e Consciência da TV Compléxis, o professor Marcelo da Luz, conscienciólogo e autor do livro Onde a Religião Termina?, esclarece diversas...

Artigos Diversos