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O Jesus Histórico

I. Para centenas de milhares de fiéis, espalhados por todo o planeta, os evangelhos contêm, na íntegra e sem necessidade de reparos, tudo o que podemos saber sobre as palavras e atos realmente provenientes de Jesus de Nazaré. Por este ponto de vista, tem-se a impressão de que as narrativas evangélicas de Marcos, Mateus, Lucas e João, ou seja, este registro quádruplo, formam um conjunto unitário, harmônico e concordante.

Todavia, se os evangelhos intracanônicos forem lidos, horizontal e comparativamente, centrando-se numa unidade ou noutra e comparando-a ao longo de duas, três ou quatro versões, o que se percebe claramente é mais a discordância do que a concordância.

Isto se dá porque: \"Os evangelhos são, em outras palavras, interpretações. Daí, naturalmente, apesar de haver apenas um Jesus, poder haver mais de um evangelho, mais de uma interpretação\" (CROSSAN, 1995:14).

A este problema central há que se acrescentar um outro. Marcos, Mateus, Lucas e João não representam todos os primeiros evangelhos disponíveis, mas são, ao contrário, um conjunto de textos, fruto de uma escolha planejada, e que resultou no que chamamos de evangelhos intracanônicos.

Outros evangelhos descobertos posteriormente, como o Evangelho de Tomé, consolidaram a noção de que o quarteto canônico serviu de suporte para a formação de uma visão central forte, que mais tarde foi capaz de \"tornar apócrifos, ocultos ou censurados quaisquer outros evangelhos\" (CROSSAN, 1995:15) que divergissem dos interesses daqueles que tomavam as rédeas do movimento de Jesus.

Como fica patente na declaração de um autor cristão do século II, Irineu de Lião, criticando outros grupos cristãos que não aceitavam este ou aquele evangelho:

Por outro lado, os evangelhos não são, nem mais nem menos, do que estes quatro. Com efeito, são quatro as regiões do mundo em que vivemos, quatro são os ventos principais e visto que a Igreja é espalhada por toda a terra e como tem por fundamento e coluna o Evangelho e o Espírito da vida, assim são quatro as colunas que espalham por toda a parte a incorruptibilidade e dão vida aos homens (Contra as heresias, 3.11.8).

Mesmo assim, quão autênticos são os relatos deste testemunho quádruplo? Como certificar-se de sua exatidão e fidelidade históricas?

Sendo eles a base para a crença cristã, qual o esteio para afirmar-se que esta ou aquela passagem evangélica é realmente proveniente do Jesus Histórico?

II. A propósito, a idéia de que os textos bíblicos, em geral, e os evangelhos intracanônicos, em particular, tenham sido escritos pelos indivíduos que lhes dão os títulos não faz nenhum sentido. Estes textos foram baseados em tradições orais transmitidas que foram sendo agrupadas e modificadas, de acordo com a linha teológica de cada comunidade cristã (CAVALCANTE e CHEVITARESE, 2003:21).

Conforme acentua Raymond E. Brown, \"nenhum dos evangelhos menciona um nome de autor, e é possível que nenhum deles tenha sido escrito por aquele a cujo nome foi ligado no final do século II\" (BROWN, 2004:60).

Helmut Köester explica este fato mostrando que os \"nomes de apóstolos ou de discípulos específicos de Jesus foram amplamente empregados para dar autoridade e legitimidade a diversos escritos, especialmente em seitas e escolas gnósticas\" (KÖESTER, 2005:8).

Em suma, não sabemos quem foram os autores dos evangelhos intra e extracanônicos. Por outro lado, sabemos que seus autores não foram testemunhas oculares dos fatos neles descritos.

De acordo com os estudos históricos, após a morte de Jesus, ocorrida provavelmente em 30 E.C., as diversas comunidades judaico-cristãs e gnósticas que se formaram produziram textos com a seguinte ordem cronológica:

Datação estimada

Evangelho

50

Evangelho Q

Tomé

66-70

Marcos (curto)

80

Mateus (usando como fontes Marcos e Q)

90

Lucas (usando como fontes Marcos e Q)

100-110

João (independente, mas com algum conhecimento de Marcos)

Contudo, embora tenhamos evangelhos escritos, os historiadores perguntamos: quem eram, realmente, os leitores dos evangelhos?

III. Esta pergunta ganha sentido quando os estudos sobre a Antiguidade mostram que apenas uma pequena minoria da população era capaz de ler e escrever. Em função disto, no contexto antigo, a leitura não era feita silenciosamente e os textos literários eram freqüentemente lidos para ser memorizados (EHRMAN, 2006:48; THOMAS, 2005:13).

Este amplo iletramento no mundo antigo aponta para uma constatação óbvia: a maioria dos cristãos, vindo das classes mais baixas, não instruídas, era analfabeta e dependente de escribas e leitores dos textos evangélicos.

Provas disso se encontram no relato de Lucas/Atos (4,13) em que se afirma: \"Vendo a firmeza de Pedro e de João e verificando que eram iletrados e homens do povo, admiraram-se\" e nos textos de um adversário do cristianismo chamado Celso, que viveu no final do século II, cuja obra \"A palavra verdadeira\" ataca o cristianismo em várias frentes. Uma delas, referida ao fato de os cristãos serem \"cardadores, sapateiros, pisoeiros, pessoas das mais incultas e rudes\" (apud EHRMAN, 2006:51), ou seja, indivíduos iletrados.

Isto posto, verifica-se que (a) a maioria dos convertidos ao cristianismo não sabia ler nem escrever e (b) desde cedo, a fé cristã estava baseada na circulação de evangelhos, cartas, apologias e outros textos que eram lidos publicamente.

Levando em consideração que naqueles tempos não havia ainda gráficas e meios eletrônicos de reprodução e distribuição, os vários livros cristãos em circulação, eram cópias de outras cópias. Assim, como garantir sua exatidão, após um longo e repetido processo de cópia, palavra por palavra, texto após texto?

IV. Diferentemente de hoje, na Antiguidade a única maneira de copiar um livro era fazê-lo à mão, letra a letra, uma palavra por vez. Não havia outro jeito, tratava-se de um processo demorado, detalhista e penoso (EHRMAN, 2006:55).

Neste processo, as cópias podiam ser modificadas, quer intencionalmente ou não. Um poeta romano chamado Marcial deixava claro para seus leitores:

Leitor, se algum poema nessas folhas lhe parecer muito obscuro ou vazado em defeituoso latim, o erro não é meu: o copista os corrompe em sua pressa de completar para você a sua narrativa de versículos. Mas se você acha que não é ele, mas eu que estou em falta, passarei a acreditar que você não tem compreensão (...) (apud EHRMAN, 2006:57).

Assim, não é de espantar-se que, já nos primeiros séculos da Era Comum, erros de transcrição fossem comuns. A queixa de Orígenes, um padre da Igreja do século III, fornece-nos uma forte evidência do quanto eram recorrentes estas modificações nos manuscritos evangélicos:

As diferenças entre os manuscritos se tornaram gritantes, ou pela negligência de algum copista ou pela audácia perversa de outros; ou eles descuidam de verificar o que transcreveram ou, no processo de verificação, acrescentam ou apagam trechos, como mais lhe agrade (apud EHRMAN, 2006:62).

Há vários outros exemplos documentados de autores cristãos dos séculos III e IV que reconhecem alterações em cartas e textos sacros, causando um grande descontentamento pela impertinência de \"hereges\" em adulterar a \"palavra do Senhor\". No entanto, é digno de atenção que estudos recentes mostraram que todas as evidências dos manuscritos remanescentes apontam para a tradição ortodoxa como a principal e mais freqüente responsável pelas alterações dos textos.

É preciso ter sempre clara a noção de que, na Antiguidade, inexistia uma espécie de centro de controle das cópias dos manuscritos evangélicos, daí porque os autores não podiam garantir que seus textos não seriam modificados ao passarem de uma comunidade à outra, após serem copiados.

Não pode ser por outra razão que alguns autores lançavam maldições sobre alguns copistas que mudavam seus textos sem permissão. Num texto cristão primitivo, incluído no Novo Testamento, o livro do Apocalipse, seu autor profere uma exortação ameaçadora, comum, segundo os tradutores para o português da Bíblia de Jerusalém (702, nota y), aos autores antigos que procuravam proteger seus escritos sagrados contra qualquer falsificação:

A todo o que ouve as palavras da profecia deste livro, eu declaro: \"Se alguém lhes fizer um acréscimo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. E se alguém tirar algo das palavras do livro desta profecia, deus lhe retirará também a sua parte da árvore da Vida e da Cidade santa, que estão descritas neste livro!\" (Apocalipse 22,18-19).

Outra importante consideração consiste em não atribuir unicamente aos interesses pessoais dos copistas e dos grupos que representavam, a responsabilidade pelas transcrições adulteradas. Muitas vezes as mudanças se davam como resultado de erros puro e simples - omissões acidentais, acréscimos despercebidos, palavras mal grafadas - em suma, por incompetência dos copistas.

Reconhecendo que mudanças de todos os tipos ocorreram nos manuscritos evangélicos pelos copistas, uma das principais questões com que se deparam os estudiosos do Novo Testamento refere-se a como reconstituir o texto original - original, no sentido de como o autor o escreveu - diante da circunstância de que os nossos manuscritos estão tão cheios de erros e alterações (EHRMAN, 2006:67).

As dificuldades são tantas que alguns estudiosos propõem o abandono de todas as discussões acerca do texto \"original\", à medida que ele nos é inacessível.

Em todos os manuscritos cristãos primitivos sobreviventes existem mais variantes do que o número de palavras de todo o Novo Testamento. A tarefa dos pesquisadores é determinar qual é a forma mais primitiva do texto de todos estes escritos.

Importa enfatizar que os estudiosos desenvolveram princípios, estabeleceram os meios para decidir quais diferenças nos manuscritos são erros, quais são mudanças intencionais e quais parecem capazes de fazer remontar ao autor original (EHRMAN, 2006:73).

Os resultados podem parecer chocantes, mas os historiadores estão bastante seguros sobre quais passagens não pertenciam originalmente do Novo Testamento, mesmo que no decorrer dos séculos tenham vindo a se tornar para os cristãos partes autênticas dos textos.

Uma destas passagens é a história de Jesus com a mulher flagrada em adultério. Imortalizado nas escolas dominicais, nas catequeses, nas aulas de evangelização, na cinematografia e nas mais diferentes representações populares da vida de Jesus, o relato se baseia em apenas uma passagem neotestamentária, João 7,53-8,12.

Dispensando sua descrição, não se pode negar o brilhantismo da história, sua cativante qualidade e a argúcia atribuída a Jesus para livrar-se de seus acusadores. Entretanto, os historiadores afirmam, com toda segurança, que esta passagem não é original do Quarto Evangelho. Mais que isso, ela não é original de nenhum dos Evangelhos. É um acréscimo posterior de algum copista.

Os fatos básicos que, levantados pelas pesquisas, convenceram a grande maioria dos pesquisadores são: a história não se encontra nos mais antigos manuscritos do Evangelho de João nem nos manuscritos unciais do século IV (KÖESTER, 2005:203); seu estilo de escrita é muito diferente daquele que é encontrado no restante de João; e ela inclui um grande número de termos e frases que são, por outro lado, estranhas ao Evangelho.

Convém ressaltar que esta história da mulher flagrada em adultério aparece nos manuscritos em diferentes pontos do Novo Testamento - alguns deles depois de João 21,25 e outros, depois de Lucas 21,38.

Acerca da razão para esta interpolação pelos copistas, os historiadores sugerem hipóteses. Talvez fosse um relato que circulava na tradição oral sobre Jesus, que a certa altura foi acrescentado a alguma cópia de algum manuscrito. Talvez fosse uma lição referente à misericórdia de Jesus com os pecadores e que veio a ser incluída a partir do momento em que houve uma mudança na Igreja em perdoar o adultério (BROWN, 2004:511).

Em todo o caso, qualquer que tenha sido a razão e quem quer que tenha escrito o relato, ele não é original do Evangelho de João.

Uma outra passagem em que há bastante segurança no que se relaciona à uma interpolação por algum copista posterior provém do Evangelho de Marcos e está no seu final. No decurso das aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos, este repreende seus seguidores por não acreditarem naquelas mulheres que lhes haviam contado a respeito de seu retorno dos mortos.

Em seguida, o Jesus pós-pascal dispensa seus discípulos para que saiam a proclamar o Evangelho a toda criatura. Aqueles que acreditarem e forem batizados \"serão salvos\", mas aqueles que não acreditarem e não forem batizados \"serão condenados\".

Depois disto, aparecem os dois mais intrigantes versículos desta passagem:

Estes são os sinais que acompanharão aos que tiverem crido: em meu nome expulsarão demônios, falarão em novas línguas, pegarão em serpentes, e se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão; imporão as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão curados.

Esta passagem tem servido há anos para legitimar, entre os cristãos do tipo pentecostal, a sua habilidade para falar em \"línguas\" desconhecidas e é a principal passagem utilizada por grupos cristãos \"manipuladores de cobras\" para provar a sua fé nas palavras de Jesus.

Sobre estes versículos, os diversos princípios e meios de verificação empregados pelos estudiosos garantem: não fazem parte do evangelho de Marcos original.

V. Em 1707, um livro provocou um verdadeiro \"tsunami\" nos estudos da transmissão do texto do Novo Testamento grego, obrigando os pesquisadores a encarar com muito mais seriedade o problema da situação textual dos manuscritos neotestamentários.

Tratava-se da edição do Novo Testamento grego de John Mill, membro do Queens College, Oxford. Mill ocupou-se por trinta anos trabalhando arduamente para reunir materiais para sua edição. O mais espantoso de sua edição, foi o aparato crítico, no qual ele citava as variantes dos textos por ele consultados, que chegavam a quase cem manuscritos gregos do Novo Testamento. Mill também examinou cuidadosamente os escritos dos padres da Igreja primitiva a fim de perceber como eles citavam os textos e, desta maneira, poder reconstruir os manuscritos por eles utilizados.

O assombro suscitado pelo aparato crítico de Mill resultou da constatação que existiam cerca de trinta mil variantes entre os textos subsistentes. Ou seja, trinta mil lugares onde manuscritos diversos, citações dos Padres da Igreja e versões apresentavam diferenças significativas.

Se Mill encontrou trinta mil variantes em cerca de cem manuscritos, hoje os pesquisadores conhecem muito mais variantes. Os últimos cálculos indicam que mais de cinco mil e setecentos manuscritos gregos foram descobertos e catalogados. Estes incluem desde o menor dos fragmentos de manuscritos - do tamanho de um cartão de crédito - até produções bem maiores e excelentes, preservadas em sua totalidade (EHRMAN, 2006:99).

Além desses manuscritos gregos, conhecem-se cerca de dez mil manuscritos da Vulgata Latina, e manuscritos de outras versões, como a Siríaca, a Copta, a Armênia, a Vétero-georgiana, a da Igreja Eslava e assim por diante.

Neste sentido, a quantidade de mudanças são impressionantes. O que dizer dos tipos de mudanças encontráveis nesses manuscritos?

Há, basicamente, dois tipos de mudanças: acidentais e premeditadas.

Entre as do primeiro tipo, ensejadas pelos fatores acima já mencionados e que, em síntese, podem ser atribuídos à incompetência dos primeiros copistas, em geral, deviam-se a existência de palavras muito semelhantes entre si e que eram tomadas uma pela outra. Outro erro comum consistia no costume que alguns copistas adotavam de abreviar determinadas palavras para ganhar tempo ou espaço.

Isto se dava para um conjunto de palavras consideradas sagradas e que eram abreviadas como uma forma de chamar a atenção para elas. Entre estas palavras especiais, os copistas abreviavam Cristo, Senhor, Jesus e Espírito. Em Romanos 12,11, Paulo recomenda ao seu leitor a \"servir ao Senhor\". A palavra Senhor , KURIOW, geralmente era abreviada nos manuscritos como KW. Alguns copistas antigos entenderam-na como uma abreviação de KAIRW, que significa \"tempo\". Conclusão: nestes manuscritos, Paulo exorta os cristãos a \"servirem ao tempo\".

Outros erros ocorriam quando palavras soavam semelhantes. Provavelmente tal erro acontecia quando alguém ditava e um copista copiava um texto. É o que parece ter ocorrido, por exemplo, em Apocalipse 1,5, onde o autor ora àquele que \"nos livrou (LUSANTI) de nossos pecados\". Uma outra palavra de pronúncia semelhante em grego, LOUSANTI, que significa lavar, aparece em alguns manuscritos medievais, fazendo com que o texto diga \"nos lavou de nossos pecados\".

As mudanças intencionais são as menos fáceis de identificar, afinal, os copistas que fizeram as alterações buscavam conferir sentido ao texto de forma a não levantar suspeitas. Nos exemplos de mudanças acidentais eles ficam sem sentido, mas nas intencionais o problema é que elas tendem a fazer sentido.

Tais mudanças premeditadas se processavam pelas mais diferentes razões, indo desde a correção do que os copistas consideravam erros factuais em seus manuscritos, passando por questões teológicas até por motivos litúrgicos.

Em Marcos 9, por exemplo, no episódio em que Jesus expulsa um demônio após as tentativas infrutíferas de seus discípulos, ele diz: \"Este tipo só sai por meio da oração\" (Mc 9,29). Tradições ascéticas posteriores influenciaram certos copistas que, na perspectiva de suas próprias práticas, fazem nos manuscritos mais tardios Jesus ensinar: \"Este tipo só sai por meio da oração e do jejum\".

VI. As alterações textuais dos manuscritos evangélicos com propósitos teológicos são bastante significativas para o estudo do desenvolvimento do cristianismo e, por que não dizer, para uma compreensão do Jesus histórico.

Vendo como os copistas alteraram os textos, é possível acompanhar como os grupos cristãos primitivos, ao longo dos anos, preocuparam-se em assegurar que os textos dissessem aquilo que eles queriam que dissessem. Em geral, as mudanças textuais teologicamente motivadas refletiam disputas que grassavam na época deles.

Tais disputas teológicas ocorriam em função do surgimento de variados grupos cristãos que traziam consigo suas percepções particulares a respeito do que Jesus teria dito e feito. É a partir deste momento, séculos II e III E.C., que uma corrente ortodoxa começa a fixar o cânone e o que eles chamariam de a doutrina verdadeira.

Neste sentido, diante de uma diversidade de textos, de uma diversidade de interpretações, o grupo \"ortodoxo\" fez escolhas, determinando aquilo que as gerações futuras de cristãos acreditariam e que passariam a ser consideradas escrituras sagradas.

No que se refere à natureza de Jesus, as disputas de pontos de vistas eram acirradas. Ele era humano? Era divino? Divino e humano? Os historiadores pensam que estas contendas influenciaram os copistas de maneira a fazer com que os textos apoiassem esta ou aquela convicção teológica.

Dentre estes grupos cristãos, havia o grupo dos docetas. O nome provém do termo grego DOKEO que significa \"parecer\" ou \"dar a impressão de\". Para estes cristãos, Jesus não era um ser humano de carne e osso. Ao contrário, era completamente (e exclusivamente) divino. Ele dava a impressão de ser humano, de sentir fome, sede, dor, de sangrar e de morrer. Sendo Deus, Jesus não podia ser um homem. Simplesmente veio à Terra sob uma \"aparência\" da carne humana (EHRMAN, 2006:172).

Autores cristãos ligados à futura corrente ortodoxa opuseram-se fortemente a esta teologia docetista, afirmando que Jesus fora um ser humano real, pois se assim não fosse ele não poderia salvar outros seres humanos, seu sangue derramado não poderia trazer a salvação, sua morte \"aparente\" não traria benefício para ninguém.

A oposição intensa aos docetas, por parte de Tertuliano e outros, afetou os copistas que copiaram os livros que enfim formaram o Novo Testamento. Os estudiosos identificam quatro variantes que demonstram esta mudanças textuais teologicamente determinadas no Evangelho de Lucas. Um exemplo ajudará a perceber o trabalho dos copistas.

Para desqualificar a pretensão teológica doceta, os cristãos ortodoxos precisavam encontrar algum apoio nos textos neotestamentários que ressaltassem que Jesus era um homem real, de carne e osso, que seu sofrimento não foi aparente, mas pleno em sua realidade. Os estudos mostraram que uma variante textual no relato de Lucas a respeito da última ceia de Jesus com seus discípulos serviu de lastro para as investidas ortodoxas contra os docetas.

Em um dos mais antigos manuscritos gregos e em vários testemunhos latinos, o relato lucano diz:

E tomando o cálice, dando graças, ele disse: \"Tomai-o, reparti-o entre vós, pois eu vos digo que não beberei do fruto da vinha a partir de agora, até que venha o reino de Deus\". E tomando o pão, dando graças, ele o partiu e o deu a eles, dizendo: \"Isto é meu corpo... Mas vede que a mão daquele que me trai está comigo nesta mesa\". (Lc 22,17-19)

Pesquisadores encontraram, todavia, na maioria dos manuscritos mais tardios, um acréscimo ao texto, que se tornou familiar a várias gerações de cristãos. Depois que Jesus diz \"Isto é meu corpo\" ele continua dizendo:

... que é dado por vós. Fazei isto em minha memória. E, depois de comer, fez o mesmo com o cálice, dizendo: \"Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado em favor de vós\".

Assim, o texto ressalta que o corpo partido e o sangue derramado por Jesus em favor de \"vós\" trariam a salvação. Ou seja, a morte real de Jesus configurava-se como a garantia da salvação. Além de não constar nas versões mais antigas, um outro tipo de evidência corroborou a opinião dos historiadores acerca da interpolação por copistas.

Em nenhum outro lugar da obra em dois volumes de Lucas (Lucas e Atos dos Apóstolos) há qualquer indicação de que a morte de Jesus foi \"por vós\". As duas passagens de Marcos em que se explicita que foi por meio da morte de Jesus que veio a salvação (Mc 10,45; 15,39) e que foram copiadas por Lucas, o autor deste evangelho simplesmente mudou a disposição do texto ou o eliminou. Implica dizer, na percepção do autor do evangelho de Lucas a morte de Jesus possuía outro significado, diferente das conclusões tiradas por Marcos (e também das de Paulo e das de outros escritores cristãos antigos).

O que se depreende na análise dos textos lucanos no que se refere à morte de Jesus, ela impulsiona as pessoas ao arrependimento e é o arrependimento que lhes traz a salvação. Surpreendentemente, somente nestes versículos Jesus afirma que sua morte é \"por vós\".

Importa descobrir a razão pela qual estes versículos foram acrescentados ao texto de Lucas. Tertuliano, intentando dar um fim às proposições docetistas, ressaltava em um de seus textos:

Jesus declarou bastante claramente o que queria dizer com o pão, quando chamou o pão seu próprio corpo. Assim também, ao mencionar o cálice e ao fazer o novo testamento ser selado em seu sangue, ele afirma a realidade de seu corpo. Sangue algum pode pertencer a um corpo que não seja um corpo de carne. Portanto, pela evidência da carne chegamos a uma prova do corpo e a uma prova da carne pela evidência do sangue (apud EHRMAN, 2006:177).

Logo, como estes versículos foram acrescentados ao texto de Lucas para ressaltar a corporeidade de Jesus, Tertuliano pôde empregá-los como um texto autêntico e originário de Jesus para desconstruir a teologia docetista.

VII. Os exemplos aqui relacionados, uma ínfima parte dentro do amplo espectro de estudos neotestamentários, evidenciam o papel desempenhado pelos copistas dos textos, na construção da tradição cristã. Seja por incompetência, seja por interesses coletivos.

Neste sentido, e à luz da certeza da manipulação dos textos, como garantir que os cristãos fundamentam sua fé em escritos autênticos e que remontam ao próprio Jesus? E se a sua Bíblia utiliza e/ou foi traduzida a partir de manuscritos com mudanças premeditadas por copistas?

Estudos modernos mostram que todas as diversas traduções bíblicas existentes, a Tradução Ecumênica da Bíblia, a Bíblia de Jerusalém, a de João Ferreira de Almeida ou qualquer outra disponível, se baseiam em textos que foram mudados em certas passagens. Todas.

Implica dizer, entender a Bíblia como divinamente inspirada, ou a Palavra Infalível de Deus é irrelevante à proporção que os textos originais que as compunham estão irremediavelmente perdidos. As palavras de Jesus remanescentes são cópias das cópias das cópias. Alteradas conforme disputas, interesses e questões de poder estavam envolvidos. Convém relembrar, porém, que os estudiosos desenvolveram métodos e critérios de análise a fim de obter com a maior precisão possível os textos que provavelmente são oriundos do Jesus histórico.

Acercar-se destes estudos, \"separando o joio do trigo\", pode vir a ser útil para distinguir os ensinos reais de Jesus e, desta maneira, não se comportar como aqueles homens \"cegos, guiando cegos\".

Bibliografia

1. Material literário cristão:

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 7ª edição, 1980.

Irineu de Lião. Livros I, II, III, IV, V. São Paulo: Paulus, 1995.

2. Obras de Referência

BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004.

KÖESTER, H. Introdução ao Novo Testamento, volume 2: história e literatura do cristia­nismo primitivo. São Paulo: Paulus, 2005.

3. Trabalhos específicos

CAVALCANTE, R. e CHEVITARESE, A. L. Jesus. São Paulo: Editora Abril, 2003.

CHEVITARESE, A.; CORNELLI, G.; SELVATICI, M. (org.) Jesus de Nazaré: uma outra história. São Paulo: Annablume, 2006.

CROSSAN, J. D. O Jesus Histórico. A Vida de um Camponês Judeu do Mediterrâneo.Rio de Janeiro: Imago, 1994.

________ Jesus: uma biografia revolucionária. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

EHRMAN, B. D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê. São Paulo: Prestígio, 2006.

THEISSEN, G. e MERZ, A. O Jesus Histórico. Um Manual. São Paulo: Loyola, 2002.

THOMAS, R. Letramento e oralidade na Grécia Antiga. São Paulo: Odysseus, 2005.

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